Exposição Não-Dito, no MABEU/CCBEU.

A pernambucana Ana Lira criou obras de arte a partir de restos de propaganda eleitoral; mostra é vencedora do Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015 e abre no MABEU na quarta (11/01)

A partir de quarta-feira, 11, o Ministério da Cultura e a Funarte, em parceria com o MABEU-CCBEU, trazem ao público paraense, pela primeira vez no Estado, a exposição Não-Dito, da fotógrafa, pesquisadora, especialista em Teoria e Crítica da Cultura e artista visual pernambucana Ana Lira. A mostra, que reúne obras criadas a partir de restos de campanhas eleitorais coletados em centros urbanos brasileiros, é fruto da pesquisa que a artista desenvolve desde 2012. Os trabalhos chegam ao Pará através do Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015, com a curadoria de Pablo Lafuente e produção da Proa Cultural.

Não-Dito resulta de um processo de pesquisa do projeto Voto!, no qual a artista explorou a atual crise de representação política brasileira, mapeando discursos criados por rasgos, escritos e colagens que foram deixados para trás pela população e transformados pela ação do tempo. O resultado foi materializado em 16 peças de acrílico, seis impressos em formato de santinhos eleitorais, sete cartazes, uma lona e um projeto audiovisual, além de materiais coletados nas ruas como panfletos, cartas-abertas, adesivos e cartilhas.

  O conjunto discute as relações de
envolvimento e transparência nos processos de representação e o desgaste dos formatos de atuação política. Assim, busca incentivar uma cultura de participação coletiva. Paralelamente à mostra, um grupo de estudos semanal, aberto ao público, vai debater os conteúdos que nortearam a pesquisa artística e propor relações com o cenário local.

  “A pesquisa exposta foi realizada no nordeste, mas a discussão proposta faz sentido em qualquer região do País”, observa Ana Lira, que desde o início do mapeamento, buscou tornar o debate universal e acessível a qualquer público. Durante o período expositivo, ela pretende ainda realizar um ciclo de intervenções artísticas nas ruas de Belém. “A proposta é que a exposição seja, ao mesmo tempo, uma plataforma de pesquisa para estudantes, artistas, pesquisadores e outros grupos interessados da cidade e uma forma de continuar desenvolvendo o próprio projeto”.

Pablo Lafuente, curador da exposição, já possui uma relação com Belém e com a região que não é de hoje. Também escritor e pesquisador, foi membro da equipe curatorial da 31ª Bienal de São Paulo (com Galit Eilat, Nuria Enguita Mayo, Luiza Proença, Charles Esche, Oren Sagiv e Benjamin Seroussi) e o curador de “A Singular Form” na Secession, Viena, também em 2014. A primeira vez que esteve em Belém foi em 2013, momento em que fazia a curadoria da Bienal de São Paulo. Retornou em 2014 para fazer pesquisa de artistas no Pará para o evento. Durante uma semana, visitou ateliês de artistas e organizou um encontro aberto com a comunidade artística do lugar, que na época contou com a parceria do Instituto de Artes do Pará (IAP). Há cinco meses regressou à capital para os primeiros movimentos da exposição, e agora, veio para participar da instalação. “Esse trabalho da Ana, que ela desenvolve desde 2012, fala da situação política brasileira, mas também internacional. Uma crise de representação política, dos efeitos dessa crise que estamos vivendo aqui e também fora. A ideia é utilizar também a exposição como plataforma para as pessoas pensarem no que está acontecendo, na sua relação com representantes políticos, de como as decisões são tomadas, do que é feito ou não pelos políticos, ou seja, uma importante reflexão do momento que todos vivemos” destaca o curador da exposição.

A chegada da mostra ao Pará marca um novo formato de atuação do Prêmio Funarte de Arte Contemporânea, com a fusão das regiões Norte e Nordeste como áreas de realização.  

  Mas o projeto de Ana Lira não se encerra somente na exposição. Ele é maior e tem desdobramentos paralelos à mostra. Convidar e articular visitas de jornalistas, estudantes de ciências sociais, ativistas políticos e público em geral, possibilitar a inclusão de pessoas com deficiência e debates e assim possibilitar que o debate ultrapasse os limites da galeria e se amplie.

“Uma das preocupações do projeto é de que possamos fortalecer e estimular a reflexão das pessoas a respeito da cultura e da política. Nosso maior objetivo é que as pessoas venham assistir à exposição, mas também conversar, debater o tema com a artista. Haverá uma agenda de rodas de conversas com a artista e esperamos receber estudantes de escolas públicas, universitários, jornalistas e o público em geral. A expectativa é de que a exposição toque as pessoas para questões que estamos vivendo agora, neste momento histórico da política. A exposição nasce de um olhar minucioso, delicado, num momento em que não dá mais para fechar os olhos para a crise de identidade, de representação que estamos vivendo. Refletir o que somos, o que estamos fazendo aqui e qual nosso papel dentro disso. Antes de mais nada, é um exercício de cidadania” conclui Lorena Saavedra, produtora local do evento.

 ENGROSSANDO O “CALDO”

  Uma coisa chamou a atenção da artista Ana Lira em sua visita ao Pará: As letras dos barcos da Amazônia. Um tipo de letra especial, diferenciada. Com a intenção de homenagear a Amazônia, lugar que acolhe sua exposição, desta forma, utilizando os letreiros, que simbolizam esta letra Amazônica. Por isso, a exposição também conta com a participação de Luiz da Silva Souto Junior, ou simplesmente Luiz Junior como é mais conhecido, abridor de letras de barcos há mais de 20 anos. Tem como base a Cidade Velha (Belém), mas viaja para diversos municípios e estados da região para desemprenhar o ofício. Foi convidado para fazer parte da equipe de produção local e contribuiu com sua arte para a grafia por todo o espaço. “Uma boa divulgação, que vai dar uma visão diferenciada do meu trabalho. Nunca tinha trabalhado desta maneira, com este tipo de letra. Acho que vai ser um negócio bacana para o futuro” destaca Luiz Junior.

  Outro aspecto importante é o da inclusão. A lei 13.146/2015A lei 13.146/15, que entrou em vigor em 3 de janeiro de 2016, representou um marco na abordagem social e jurídica das pessoas com deficiência (motora e/ou sensorial). Regulamentando a Convenção de Nova York, da qual o Brasil é signatário, visa à promoção da autonomia individual, liberdade e acessibilidade. Por este motivo, haverá uma equipe de profissionais no período da exposição, auxiliando os mediadores e ao público presente, fazendo a audiodescrição e interpretação de língua de sinais. “Quando a gente se abre para outras percepções sensoriais, a gente cresce como ser humano. Um profissional, um professor, que tem qualificação para ministrar aula para pessoas com deficiência, surdas, ensudercidas, cegas, com baixa visão, tem habilidade metodológica infinitamente melhor do que um profissional que nunca estudou para isso. No campo da cultura, o universo de possibilidades e muito maior. A exposição, que está trazendo uma série de percepções, reflexões, a partir de uma fotografia, um cartaz que estava se deteriorando, que ganha outro formato e nos permite refletir as nossas posturas. É muito prazeroso, uma satisfação muito grande, saber que as pessoas envolvidas no projeto não estão fazendo isso apenas para cumprir a lei. A artista tem engajamento, amizade com pessoas com deficiência e o projeto surge de uma maturidade, de envolvimento com um grupo social que ela já convivia. Para mim, está sendo uma satisfação fazer parte deste projeto também”, conclui Aline Corrêa, profissional de audiodescrição e participante do projeto.

SERVIÇO

NÃO-DITO – Exposição da artista Ana Lira

De 11/01/17 a 24/02/17

Galeria de Arte do MABEU-CCBEU – Museu de Artes Brasil-Estados Unidos

Travessa Padre Eutíquio, 1309 – Batista Campos – Belém

Abertura: Quarta-feira (11/01/2017) às 19h30

Rodas de Conversa: 14, 21 e 28/1; 4, 11 e 18/2, das 14 às 17 horas

Visitação gratuita: Segunda a Sexta das 14h às 19h e sábado das 9h às 12h

Visitas de grupos e escolas: Segunda a Sexta, das 9h às 14h, com agendamento.

Informações e agendamentos: (91) 3221-6116 ou (91)3221-6143

Fonte: Minc Regional Norte

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